Entrastando com Inox

Ibanez China chegando na Pauleira Guitars para o entrastamento com inox.

Quando essa guitarra chegou aqui na Pauleira Guitars, pensei que poderia ser um assunto interessante para abordarmos em nosso bog.

Já havia pesquisado bastante sobre trastes de aço inox, feito algumas instalações, mas o pedido desse tipo de trabalho, por parte dos clientes não é algo muito frequente por aqui.

Decidi então fazer uma enquete na comunidade LUTHIERIA no Facebook…também não me pareceu algo muito presente no dia a dia de luthiers e músicos mas encontrei opiniões bastante interessantes que compartilharei com vocês.

Fui então perguntar para o maior entrastador de inox entre os fabricantes nacionais, Ivan Freitas da Music Maker. Será que faz sucesso nas guitarras produzidas pela MM? Veremos…

E para poder tratar o assunto com pontos de vista e experiencias diferentes, trago para o nosso blog o Luthier Rafael Gomes (da Rafael Gomes Luthieria – Fortaleza).

Bem vindo Rafael, é um prazer recebê-lo por aqui!

 

# Sobre Trastes de Inox #
por Rafael Gomes Luthier

Entrastamento da Fender Telecaster – Rafael Gomes

A primeira pessoa a me falar sobre trastes feitos de aço inox foi o Pérsio Cunha, um excelente luthier do interior de SP que, infelizmente, abandonou a profissão depois de um acidente grave.

Ele disse que ia usar sempre trastes inox nos instrumentos que fazia por gostar mais do resultado sonoro e por causa da durabilidade. Mas disse também que o trabalho de instalação era proporcional aos ganhos por causa da dureza muito maior do traste inox.

Trastes Jescar (foto do site da Jescar)

Tempos depois eu consegui uma boa quantidade de trastes Jescar 57110 (largura média e bem alto) e vi que o Pérsio tinha toda razão: o traste é muito, mas muito mais duro que o traste de níquel/prata normal. Isso fez com que eu demorasse algumas semanas até acumular força de vontade o suficiente pra sair cortando os 22 trastes pra instalá-los na minha Flying V. Obviamente, o primeiro experimento com os trastes tinha que ser feito com uma guitarra minha. Eu jamais faria experimento algum com guitarras de clientes.

Logo em seguida do teste inicial na Flying V, chegou uma PRS para o Rafael colocar os trastes de inox! hehe – na verdade ela estava na fila só esperando o primeiro teste! =D

Acho justo que a análise dos trastes inox seja feita sob duas perspectivas: a do luthier e a do guitarrista.

Como luthier, minhas impressões sobre a instalação não foram diferentes das do Pérsio: os trastes são extremamente duros. Eu tenho reumatismo (toda minha família tem) e eu não tenho funcionários, portanto a instalação frequente desse tipo de traste está fora de cogitação pra mim. Apesar do custo do traste não ser muito diferente do traste normal, o tempo de instalação, o desgaste das ferramentas, dos pulsos e da paciência do luthier são muito maiores. Isso explica o alto valor pago pelo trabalho. O custo da instalação é pelo menos duas vezes maior que o traste normal.

ESP na oficina do Rafael.

Para o guitarrista, quero novamente separar a coisa em dois aspectos. O primeiro deles, o mais óbvio, é a durabilidade. Quanto tempo levou até você trocar os trastes da sua guitarra? Dez anos? Pois saiba que os trastes inox vão durar 50 anos na sua guitarra. Talvez mais. Isso não é exagero. Vá até a sala do seu luthier e peça a ele um alicate pra que você corte um traste comum e depois corte um traste de aço. Assim você vai sentir a diferença com seu próprio punho.

Se a única vantagem do traste inox fosse a durabilidade, já valeria cada centavo investido. Mas há outra vantagem que é anunciada pelo fabricante e que eu achava que era papo furado de quem queria me vender o traste: o inox facilita a execução de bends e vibratos. E como ele faz isso? Ao fazer um vibrato, a corda atrita nos trastes. Mas nos trastes inox, a fricção entre traste e corda é muito reduzida. O resultado final do polimento é superior ao de níquel/prata, portanto, ao fazer um bend ou vibrato, você vai ter a sensação do traste ser “amanteigado”. E essa sensação nunca acaba. Por ser muito duro, ele não fica arranhado e não perde o brilho. Eu tenho guitarras com traste inox há quase dois anos e o traste não tem sequer um risco. Continua absolutamente espelhado.

Music Man Luke – Rafael Gomes

Os trastes inox vão varrer os de níquel/prata do mercado? Claro que não. Eu diria que só uns 10% dos fretworks que faço são com inox. Pergunte-se honestamente: você encontrou a guitarra dos seus sonhos? Pretende não vendê-la tão cedo? Tem a grana pra fazer a troca? Pois instale os inox. Tocar uma guitarra com esses trastes é uma experiência diferente: toque com uma delas por 10 minutos e você vai até achar estranho voltar pra sua guitarra com trastes comuns.

Fender Ritchie Blackmore – Rafael Gomes

Em tempo: fiz o primeiro experimento com a minha Gibson Flying V. Depois coloquei os Jescar nas minhas outras 11 guitarras. Isso diz tudo sobre o que eu penso sobre esses trastes.

Links Rafael Gomes Luthier:
Blog do Luthier: www.blogdoluthier.blogspot.com
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Perfil no Facebook: www.facebook.com/rafaelgomesluthier

 

# Trabalhando com Trastes de Inox #
por Pauleira Guitars

Fazer a colocação de trastes de inox é realmente uma tarefa árdua!

A sequencia de entrastamento é básica, portanto com algumas mudanças: você tem que ser forte fisica e emocionalmente. Precisa ter força para trabalhar com o material e ser perseverante pois uma hora acaba e a satifação é garantida!

Retirada dos trastes antigos.

Imagino que os leitores mais assíduos devem se lembrar que anteriormente este assunto já foi mencionado por aqui quando falamos de troca e nivelamento de trastes.

Trastes de inox já curvados, trazidos pelo próprio cliente.

É importante verificar a espessura da cavidade bem como a profundidade da mesma.

Marcações para corte dos trastes individuais.

Recebí os inox em tiras já curvadas (thanks God!). Como eu sabia que o corte iria provocar um grande desgaste no alicate, optei por fazer de outra forma…

Utilizando o disco de corte da micro retifica.

Daí o porque da marcação do tamanho de cada traste nas tiras de inox.

Proteção durante o trabalho.

Para este trabalho é muito importante a utilização de óculos e mascara…voa muito resíduo e em terra de luthier quem tem os dois olhos é prevenido!

Colando e assentando o “hard fret”.

Uma pausa breve: como podem perceber, não deixei excessos nas laterais e fiz a inclinação direto com a lima…demora um pouco mais quando se trata de aço inox!

Nivelamento

Haja tempo e paciencia…realmente, como disse o Rafael Gomes, é um serviço bem mais caro por exigir muito mais. Mais força, mais tempo, mais paciência, mais desgaste de ferramentas…

Mas o resultado final é bastante satisfatório!

…e no final, um cliente mais feliz!

A durabilidade é bem maior que os trastes de niquel, por exemplo. Fica muito bonito visualmente e o timbre enfatiza os agudos…neste caso, é interessante existir a analise de ambos os lados, como disse o Rafael: do guitarrista e do luthier. Mesmo porque altera o timbre da guitarra, principalmente para os mais sensitivos.

Se você é da velha guarda (em termos de estilo e timbre musical), talvez possa provocar uma sensação de estranheza por não soar algo mais vintage. Insistindo na condição de você ouvir frequencias além da media!

Mas como disse antes, tudo isso pode variar de acordo com a sensibilidade pessoal, estilo e pegada de cada músico bem como com a configuração de todo o conjunto da obra madeiras, captadores, efeitos…

A diferença que se nota a principio quando se testa pela primeira vez o traste de inox é a sensação de suavidade – excelente para sua auto estima.

Em resumo, acredito que tudo é um conjunto de coisas que torna o seu instrumento perfeito para você.

 

# Enquete realizada na Comunidade LUTHIERIA #
por Petrônio Malheiros Luthier

Pauleira Guitars: Quais as suas impressões pessoais (musicalmente falando e/ou “luthieristicamente” também) sobre os trastes de inox?

A maioria sugeriu profissionais que pudessem falar melhor a respeito até que o próprio Rafael Gomes entrou em contato comigo para falar mais do que uma resposta ao tópico, sabendo que eu estava escrevendo esta matéria. Outros expressaram curiosidade em conhecer o material, outros ouviram falar…

Mas uma das respostas a essa pergunta (olha que coincidência!), também veio lá de Fortaleza, pelo Luthier Petrônio Malheiros. Me chamou a atenção e resolvi compartilhar aqui também.

Petrônio Malheiros Luthieria:
Tenho feito algumas instalações de trastes inox, em guitarras de clientes (PRS, Peavey, Wolfgang, Ibanez…) e tenho achado excelente. Realmente a instalação é bem mais trabalhosa e um detalhe que se deve observar é que o tang deles e maior que os convencionais, tem que aprofundar mais o slot. E em algumas guitarras (como varias Fender) que a escala é muito fina, isso pode dar dor de cabeça. Mas de fato a tocabilidade e aparência são superiores aos de alpaca. Um amigo meu que instalei na guitarra dele disse algo que achei engraçado mas é verdade: parece que passaram manteiga nos trastes inox, hehehe.

Já o timbre, sinceramente eu não tenho ouvidos tão apurados pra sentir diferença, prefiro não dar uma de papagaio e repetir o que falam por aí, mas sim falar da minha experiência pessoal. Tenho um blog que falei sobre os inox em alguns serviços: luthieriananet.blogspot.com.br

Só complementando, a hora mais complicada é de cortar e esconder o tang em braço com binding… Meu deus, tem hora que a mão de fato dói! como não tem alicate que aguente o tranco dos inox (nenhum alicate pra cortar tang no mercado recomenda usar nos inox) você tem q dar seu jeito com lima, dremel… Sem contar que as limas de traste vão embora bem mais rápido. Por isso a instalação é bem mais cara, não tem jeito…

 

# Mini entrevista com Ivan Freitas #
por Ivan Freitas – Music Maker

E para saber da opinião de quem produz guitarras em quantidades superiores e ainda com a utilização dos referidos trastes, perguntei para o Ivan Freitas da Music Maker sua opinião sobre o assunto.

Pauleira: Ivan, por que optou pela utilização de trastes de inox em sua produção? Isso não afeta seu tempo de montagem das guitarras por se tratar de um material mais chato de se trabalhar? Ou tem uma maquina esperta para isso? E o timbre? Sei q existe uma diferença. Você chega a compensa-la na configuração dos captadores ou isso acaba também se tornando uma identidade dos seus instrumentos?

Ivan: Primeiramente a tocabilidade dos bends, que ficam bem mais fáceis devido a sua superfície mais lisa (sem oxidação , marcas, riscos e desgastes).

Em relação ao trabalho e tempo sim afeta. Mas acho que nós temos sempre que pensar em fazer o melhor. Não tem milagre dá trabalho. O método da colocação é o mesmo, em inox X2.

O timbre, eu acho que a mudança é praticamente imperceptível. Só o próprio guitarrista, dono do instrumento, percebe. Mas melhora tanto a tocabilidade que ele nem pensa ou associa se houve algum tipo de mudança no timbre.

Na minha opinião os captadores, modelo da guitarra e principalmente o guitarrista são os grandes responsáveis diretos pelo timbre do instrumento. Identidade, eu acho que não. É só mais uma parte do conjunto, visando sempre o melhor de um todo!!!

# Comentários dos Músicos #
por Todos os músicos

E para terminar essa pequena matéria, convidamos todos os músicos para compartilharem sua opinião pessoal aqui no nosso blog e também na nossa comunidade de LUTHIERIA para sabermos se realmente o bagulho desliza mesmo e se vocês tem a sensibilidade de amar ou odiar esse tipo de material.

 

Rafael Gomes, Petrônio Malheiros, Ivan Freitas e pessoal da comunidade LUTHIERIA que abraçou a causa um grande abraço e muito obrigada pela participação de vocês!

18 thoughts on “Entrastando com Inox

  1. Kvix

    Maravilha Paula, as fotos também… pode ser uma nova onda de solicitações… mas só faria se pudesse tocar em uma… quem sabe na próxima… agora só escalas mais grossas rsss…

    1. Pauleira

      Boa Klaus!!!! =D
      Um abração!

  2. Petrônio Malheiros Luthieria

    Ficou show de bola, Paula! Só pra finalizar, de fato é um investimento alto mas vale cada centavo. Tenho um cliente que disse que ficou mal acostumado, pretende colocar em todas as guitas dele, hehehe. Abç!

    1. Pauleira

      Valeu Petronio! Muito importante essa troca de experiencias! Um abraço

      1. Daniel

        Eu instalei com o petrônio em 2 guitarras minhas, uma das quais infelizmente tive que vender (vender não, um amigo tomou e me idenizou, pois eu não queria me desfazer, kkkkk, mas eu estava sem tocar e ele precisando, acabei cedendo). Se eu pudesse instalava em todas as outras, mas o custo é realmente alto pra alguém que nem está mais tocando profissionalmente. Fica manteiga e com uma impressão só tocar de mais segurança, sei lá, só vai tocando pra ver.

  3. Ricardo Fonseca

    Muito bom o seu post, Paula. Aliás, como de costume. Não tenho palavras para dizer o quanto acho importante essa iniciativa.

    Assunto particularmente interessante para mim este, já que estou finalizando uma encomenda de um instrumento para o qual o cliente enviou trastes de inox. Em se tratando de um violão, certamente traz outras considerações. E, sim, sou obcecado pela questão “timbre”. Então, vamos ver como fica.
    Quando eu tiver finalizado volto a este POST para compartilhar minhas impressões.
    Valeu!

    1. Pauleira

      Oi Ricardo! Volte sim para contar para gente o que achou!!!
      Muito obrigada!
      Um abraço

  4. Alex Poliver

    Olá Paula.
    Sou usuário das guitarras Musica Maker a muitos anos (tenho 3) as duas primeiras foram construídas com trastes convencionais e a mais recente (uma strato) com trastes inox. Com certeza os trastes inox são superiores e realmente facilitam a tocabilidade, porém exigem mais precisão e domínio do instrumento pois o atrito entre as cordas e o trastes diminuem MUITO. Assim que os trastes das minhas outras Music Maker se desgastarem irei substituí-los por inox. 
    Quanto a questão de escolher os de inox ou alpaca creio que depende da necessidade de cada um. Para um hobbista que utiliza o instrumento poucas horas por semana os de alpaca cumprem bem a função. Para pessoas que utilizam a guitarra várias horas por dia os de inox valem cada centavo. Pois acabam se revelando uma grande economia com o passar do tempo.

  5. Felipe

    Olá, gostaria de colocar trastes de inox em uma fender stratocaster.. vale a pena!!?

  6. marcelo

    Seu site tem sido de grande valia, muito obrigado pelo esforço de mostrar tudo isso, espero que tenha recompensa de tudo isso… de coração. me tire uma dúvida, esmerilhadeira angular seria útil para esse tipo de trabalho?

    1. Pauleira

      Muito obrigada Marcelo!!!
      Eu acho que a esmerilhadeira angular é um monstro para fazer um trabalho tão minucioso. Não é um equipamento de extremo controle para trabalhar com materiais pequenos…bom, eu acho né! rs

  7. Eduardo

    Oi Paula gostaria de trocar os trastes de um violão strimberg e colocar de inox,juntamente com a troca do rastilho e do nut por osso.Caso vc faça esse trabalho  poderia me mandar um orçamento?

  8. Julio Cesar Pompeu

    Paula curti muito o tópico, e com certeza vou instalar em uma guitarra minha parabéns pelo trabalho!!!

  9. Dennis Ortega

    Matéria excelente, Pauleira! Tirou minhas dúvidas em relação a diferença de cada material (inox X níquel). Acredito que recursos inovadores que aumentem o desempenho do músico e tocabilidade em seu instrumento são muito bem vindos. Experimentar é necessário. Agora, mais do que nunca, animado e curioso para ver o resultado da instalação dos trastes inox em minha SG apimentada! 😉

  10. Natanael Lira

    Eu uso inox há uns três anos, são bem melhores, na verdade eles são o que as marcas de trastes vinham tentando encontrar em termos de qualidade so longo das décadas, e foi uma empresa do ramo de ferramentas ópticas e cirúrgicas(a Jescar) que resolveu entrar nesse mercado pra arrebentar, com sua tecnologia de ponta em fundição e forja de ferramentas de precisão. Não só o lombo dos trastes é melhor, como a trava destes também. Agora, quanto ao corte, eu utilizo o alicate, porém eu não tento fazer o corte total com ele, apenas marco o local do corte e quebro dobrando. O traste não empena e o alicate e a minha mão agradecem.

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